Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

Nunca se sabe... (parte 3)

Achei que podia começar.

- Posso pedir que seja descoberta a cura de doenças?

- Claro que não! Porque é um pedido altruísta. Não podes. E, além disso, temos protocolos da companhia com determinadas entidades. Portanto pedidos tipo finalistas de miss, esquece. Nada de erradicar fome, pobreza e afins. Os pedidos têm que ser egoístas.

- Ok. Quero uma moradia isolada, com dois pisos, garagem, 3 quartos, 4 wc's , sala com lareira, cozinha totalmente equipada e já mobilada. E garagem com um automóvel dentro. De preferência carrinha familiar.

- Mas tu sabes contar?! Isso são é mais de uma dúzia de desejos! Pedes uma coisa e depois sujeitas-te ao que há disponível em stock e às marcas com as quais temos acordos.

- Assim é impossível!

- Ok. Aqui para nós, porque estou bem disposto e hoje já atingi os objectivos. Depois de ti vou descansar. Queres mesmo alguma coisa?

- Ser feliz.

- Mas és de compreensão lenta! Achas que tenho felicidade, saúde ou amor em stock?!

- Quero um automóvel, mas quero o dos meus sonhos.

- Ai! Primeiro, nada de pedidos directos, segundo, é o que há em stock. Modelo económico de há 2 anos e sem garantia da marca.

- E pede-se como? Quero deixar de andar de transportes públicos?

- Tens que te despachar. Faltam 5 minutos para o fim do teu tempo!

- Não me falaste em tempo limite!!!

- Não perguntaste.

- Mas que raio de Génio és tu afinal?

- Génio corporativo ao serviço dos interesses da empresa! Qual é a tua dúvida?

- Mais valia que não existisses.

- Processando... Frase afirmativa. Desejo egoísta. Desejo indirecto de não me ter encontrado. Dentro do tempo limite. Desejo concedido. Acabou o tempo.

...

Acordei com areia na boca... Sensação que não aconselho. E este foi sem dúvida dos sonhos mais estranhos que já tive.

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Egotismo de Sophia às 10:51

Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Nunca se sabe... (parte 2)

Já refeita, a bem da verdade, não me cheguei a refazer do susto e do espantoso da situação.

Mas, considero-me desenrascada e lá me controlei o melhor que pude.

- Vais conceder-me quantos desejos?

- Um mínimo de 2 e um máximo de 4. Tu decides.

- E quais são as condições?

- Em traços gerais é só uma. Não podes pedir nada do que verdadeiramente queres directamente.

- Hein?

- Dou um exemplo, seu quiseres dinheiro, tens que escolher ter uma profissão ou ocupação rentável.

- Ok. É se pedir directamente?

- Perdes dois desejos. Esse e mais um de penalização. Queres começar?

E neste momento percebi que não sabia por onde começar. Sabia que queria dinheiro, há coisas que são incontornáveis. Sabia que precisava de pedir saúde para umas quantas pessoas e sorte para outras tantas. Mas não queria errar ! Lembrei-me da brochura e das condições gerais.

- Posso ver os papéis que me falaste no início?

- Claro!

Deu-me uma folha A4 onde se lia "Peça até 4 desejos!" "Torne a sua vida no que sempre sonhou" "Se não ficar satisfeito, concedemos-lhe um desejo final!". Tinha umas imagens de sítios paradisíacos, bons automóveis, casas e só.

Pedi as condições gerais. Fiquei nas mãos com um manual que tinha o tamanho de uma lista telefónica de Lisboa. Abri e não me espantei de ver letras que necessitavam de lupa para decifrar.

- Esperas que eu leia isto tudo?

- Claro que não, só mesmo a brochura! Isso podes ler depois! Não é nada importante! Mas despacha-te. Não tenho o dia todo.

 

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Egotismo de Sophia às 11:07

Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

Nunca se sabe... (parte 1)

É-me acessível passear na praia. Agora que as praias estão mais vazias, gosto mais.

Gosto de ouvir o barulho das ondas no silêncio do mar. Ver as minhas pegadas na areia. Sentar-me e contemplar o mar.

Num destes passeios tropecei. Estava descalça, ainda disse umas quantas palavras menos próprias. Mas logo parei de praguejar. Esfreguei os olhos. Tropecei numa lâmpada... Sim. Daquelas de que só tinha ouvido falar na história do Aladino. Foi mais forte que eu. Baixei-me e apanhei-a. Certifiquei-me que ninguém estava a ver. Instintivamente, esfreguei. Uma, duas, três, quatro vezes e nada... Ri-me da minha tolice. Peguei na asa e já me preparava para a ir deitar num caixote...

- Eh! Espera aí! Ah! Uma mulher... Impaciente tu!

Caí na areia estupefacta. De olhos esbugalhados, percebia o ridículo da cena. Eu sentada na areia. A lâmpada ali um metro mais ao lado, caída. E uma criatura suspensa no ar a falar-me assim. Belisquei-me. Olhei, novamente, em volta. Não estava ninguém na praia.

- Sim? Sou o Génio da Lâmpada. Vou conceder-te desejos. E depois tens que atirar a lâmpada ao mar. Certo? Sabes o que pedir ou queres dar uma vista de olhos na brochura e condições gerais?

Eu ainda estava presa ao ridículo. Não conseguia fazer-me articular palavra perante uma criatura que estava envolta em nevoeiro, pouco denso é certo, mas flutuava, vestida de fato e gravata, com uma pasta na mão e uns papéis na outra. Mas esforcei-me.

- Vamos por partes. Ponto 1, isto não é um sonho?

- Não! Como podes duvidar da minha existência se me vês?

- Não vás por aí. Vejo muita coisa na qual não acredito. Ponto 2, és um Génio e vais conceder-me desejos a troco de nada?

- Eu disse que te concedia desejos. A troco de nada, já foste tu a acrescentar!

- Ok. E dizes tu que posso ver uma brochura. E, já agora, desculpa lá, mas de fato??? Então e o figurino típico das histórias?!

- Não sejas ridícula! Esses génios só existem nas historietas de encantar. São uma vergonha para a nossa classe e só causam mal-entendidos quando aparecemos.

Claro que me senti muito menos ridícula depois disto!

 

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Egotismo de Sophia às 12:45

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